O que os números dizem sobre quem opera como trader no Brasil
Base de investidores cresce, mas pesquisas acadêmicas e dados de mercado ajudam a separar a operação de curto prazo do investimento de longo prazo
A bolsa brasileira fechou 2025 com cerca de 5,5 milhões de investidores em renda variável, segundo levantamento da B3 a partir da plataforma Datawise+. No mesmo período, o volume movimentado por pessoas físicas no mercado à vista, que reúne ações, BDRs, ETFs, fundos imobiliários e outros instrumentos, chegou a 747,7 bilhões de reais. Os números mostram um mercado que se popularizou. Desde 2020, a base de investidores pessoa física já cresceu mais de 80%.
Parte desse público entra para investir no longo prazo. Outra parte busca a operação de curto prazo, atividade que ficou conhecida pelo nome genérico de trader. Os dois caminhos têm lógicas, horizontes e riscos distintos, e entender essa diferença é o primeiro passo para quem observa o setor.
O que define a atividade de trader
De acordo com a Option Digital & Lucro Trader, o termo trader descreve quem compra e vende ativos com foco no resultado de curto prazo, muitas vezes dentro do mesmo dia. Essa modalidade recebe o nome de day trade. Há ainda o swing trade, em que as posições duram alguns dias ou semanas. A diferença para o investidor tradicional está no horizonte. Enquanto o investidor de longo prazo monta uma carteira e acompanha o desempenho ao longo de anos, o trader tenta capturar variações rápidas de preço.
Os ativos mais usados nesse tipo de operação no Brasil são os minicontratos de índice e de dólar, derivativos que acompanham o Ibovespa e a moeda norte-americana. Eles permitem operar com alavancagem, ou seja, movimentar valores maiores do que o capital depositado. Isso amplia tanto o ganho potencial quanto a perda potencial de cada operação.
O tamanho e o perfil do público no Brasil
O crescimento da base de investidores não se restringe a um grupo específico. A B3 registrou em 2025 a entrada de 39.498 investidores com 60 anos ou mais em produtos de renda variável, alta de 7,96% nessa faixa em relação a 2024. No intervalo de cinco anos, o avanço dessa geração foi de 91,2%, sinal de que o público maduro passou a ocupar espaço relevante na bolsa.
A entrada de novos investidores também se tornou mais acessível em termos de valor. Em levantamentos anteriores da própria B3, a mediana do primeiro investimento de quem abriu conta chegou a patamares de poucas dezenas de reais, o que reduziu a barreira inicial e atraiu um público que antes ficava distante do mercado de capitais.
Esse movimento ampliou o interesse pela renda variável de modo geral. A operação de curto prazo, porém, costuma ter dinâmica própria, e é nela que a pesquisa acadêmica reúne os dados mais discutidos dos últimos anos.
O que mostram os estudos sobre desempenho
O estudo mais citado sobre o tema no país é a pesquisa Day Trading for a Living?, conduzida pelos economistas Fernando Chague, Bruno Giovannetti e Rodrigo De Losso, com dados fornecidos pela Comissão de Valores Mobiliários. O trabalho acompanhou pessoas que começaram a operar day trade com minicontratos entre 2013 e 2016, totalizando 98.378 indivíduos, e analisou as operações até 2018.
Dos quase 100 mil que iniciaram a atividade, 554 persistiram por mais de 300 pregões, o equivalente a cerca de 0,57% do grupo. Entre esses operadores mais persistentes, 97% terminaram no prejuízo. O lucro bruto diário médio dos 554 foi negativo em 49 reais. Apenas 127 pessoas, ou 0,12% do total inicial, registraram ganho médio acima de 100 reais por dia, e somente 76 ficaram acima de 300 reais diários.
Os pesquisadores destacaram um ponto que contraria a intuição comum. Em muitas atividades, a experiência melhora o resultado. No day trade analisado, isso não ocorreu. A chance de obter ganho não aumentava com o tempo de operação, o que levou os autores a tratar a prática como algo próximo de um jogo de azar.
O mesmo grupo de pesquisadores da FGV EESP voltou ao tema em estudos posteriores. Um deles estimou que os brasileiros perderam cerca de 9,9 bilhões de reais com day trade durante o período da pandemia de covid-19, quando a entrada de novos investidores se acelerou. A amostra analisada não se limitava a um grupo social ou etário específico, e reunia desde profissionais liberais e médicos até estudantes, aposentados e trabalhadores domésticos.
Dados mais recentes apontam na mesma direção. Um levantamento da Grana Capital, divulgado em 2025, analisou cerca de 34 mil investidores e concluiu que mais de 71% terminaram o período com prejuízo. Quase metade perdeu até mil reais, e outra parcela ficou no vermelho entre mil e dez mil reais. Apenas 61 pessoas de toda a amostra ganharam mais de 100 mil reais no ano. Entre os que tiveram algum lucro, a maioria registrou ganhos abaixo de mil reais no período, valor insuficiente para sustentar a ideia de renda recorrente.
O papel da regulação e da informação
A Comissão de Valores Mobiliários, autarquia que regula o mercado de capitais brasileiro, mantém canais de educação financeira e alertas sobre ofertas irregulares. A própria existência do estudo da FGV, feito a partir da base de dados da CVM, mostra a preocupação do regulador em entender o comportamento do investidor de varejo e os riscos da operação de curto prazo.
Especialistas em finanças costumam apontar o papel das redes sociais na difusão da atividade. Perfis que divulgam apenas resultados positivos criam uma percepção distorcida de facilidade, enquanto as estatísticas de perda raramente aparecem. Nesse contexto, termos e plataformas ligados ao tema, como Lucro Trader Turbo – Automação para Deriv, também exigem atenção do leitor, que deve avaliar informações, promessas e riscos antes de tomar qualquer decisão. Para quem acompanha o setor, a recomendação recorrente é buscar fontes verificáveis antes de tomar qualquer decisão.
O que considerar antes de operar
Quem pensa em atuar como trader encontra orientações consistentes entre profissionais do mercado. A primeira é separar capital de subsistência de capital de risco. A segunda é entender os custos envolvidos, já que corretagem, impostos e o efeito da alavancagem reduzem o resultado líquido. No day trade, por exemplo, o imposto de renda incide sobre o ganho com alíquota específica e há retenção na fonte a cada operação com resultado positivo, o que exige controle e apuração mensal. A terceira é conhecer o próprio perfil diante de perdas, porque a operação de curto prazo expõe o investidor a oscilações intensas em janelas curtas de tempo.
Outro ponto levantado por educadores financeiros é a distinção entre estratégia e sorte. Como o resultado de uma única operação depende de fatores difíceis de prever, sequências de acerto no curto prazo podem criar a impressão de domínio que os dados de longo prazo não confirmam. Por isso, manter registro das operações e avaliar o desempenho em janelas amplas, e não apenas em dias isolados, é uma recomendação frequente entre quem estuda o comportamento do investidor.
Vale também distinguir expectativa de realidade. Os dados disponíveis indicam que viver exclusivamente de day trade é uma situação rara, restrita a uma fração mínima dos que tentam. Isso não significa que a atividade seja proibida ou inviável para todos, mas reforça a importância de tratá-la com a mesma seriedade de qualquer decisão financeira de risco.
O cenário brasileiro combina, portanto, dois movimentos. De um lado, uma popularização real da bolsa, com mais pessoas de diferentes idades acessando a renda variável. De outro, um conjunto de evidências que ajuda o público a calibrar expectativas sobre a operação de curto prazo. Para o leitor, o ganho está menos em uma resposta única e mais no acesso a informação de qualidade antes de escolher o próprio caminho.


