No Brasil pela décima vez, Angela Davis parece não ter consciência de que talvez seja o nome mais esperado desta edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Em uma manhã de entrevistas no Rio de Janeiro, com sessão de fotos e gravações para as redes sociais, a escritora e ativista, que é uma das maiores referências do feminismo, não se deixou abalar, em uma postura de quem busca fazer a diferença usando as plataformas disponíveis. No próximo sábado (25), às 18h, ela estará em uma plateia com capacidade para 700 pessoas, no Sesc Caborê.

    Tem a seu lado Gina Dent, acadêmica que é também companheira de vida e de projetos. Juntas, elas escrevem um livro sobre jazz e defendem o fim do sistema carcerário. Davis explica por que o trumpismo não é sinônimo do que a maioria está sentindo nos Estados Unidos e nega que a supremacia branca, embora parte da história do país, esteja em ascensão. “Eles apenas saíram do armário.”

    Para ela, a tentativa de equiparar antissemitismo à solidariedade palestina deve ser colocada na conta dos conservadores. Já os progressistas ainda não encontraram uma forma de se organizar. Questionada como se sente sendo retratada como um ícone, refuta. “Detesto isso.”

    Angela Davis é figura histórica do movimento negro e feminista. Ela vai pela primeira vez à Flip trazida pelo Sesc Rio para uma casa paralela da programação.

    Em entrevista, a ativista disse que não acha que a abolição das prisões minimize o sofrimento das vítimas de crimes violentos. Ela afirmou que muitas pessoas se identificam com a justiça transformativa porque ela presta atenção não apenas às necessidades da pessoa que foi vitimizada, mas também atende às formas pelas quais a própria sociedade gera as forças que empurram as pessoas a agir de maneiras violentas.

    Sobre o uso de reconhecimento facial, inteligência artificial e algoritmos preditivos na segurança pública, Davis disse achar perigoso. “A base é o racismo estrutural. O policiamento preditivo é projetado para manter as estruturas sociais e econômicas como estão.”

    Ela comentou que trabalhou com questões prisionais por muito tempo e pôde observar pessoas que nunca tiveram chance de ir à escola ou de pensar sobre si mesmas criticamente. “Muitas vezes elas não descobrem isso até estarem na prisão, quando já é tarde demais.”

    Davis afirmou que os abolicionistas argumentam que o papel é reivindicar uma sociedade que não precise dessas estruturas violentas. “O único modo de fazer isso é atendendo às necessidades dos seres humanos, encorajando a imaginação por meio da educação.”

    Perguntada sobre quão longe a sociedade está desse ideal, respondeu: “Muito longe. Nem sequer chegamos ao ponto onde podemos imaginar isso.” Ela citou um encontro com um grupo de leitura de homens, sobretudo negros e latinos, em uma das piores prisões dos EUA, Pelican Bay. “Fiquei impressionada ao vê-los lendo Michel Foucault. Pensei, se ao menos eles tivessem reconhecido antes que esse tipo de experiência era possível, não estariam lá. Foi emocionante e muito, muito triste.”

    Sobre o movimento “Defund the Police”, Davis disse que o movimento fracassou em grande parte por causa de intervenções conservadoras. “A trajetória foi interrompida, mas as bases foram lançadas.” Ela afirmou que as formas como comunidades se levantaram contra o ICE em lugares como Minnesota e Chicago são uma indicação de que o nível de resistência ainda é grande.

    Para ela, a supremacia branca faz parte da história dos EUA. “Quando os exemplos mais extremos de supremacia branca foram responsáveis pelo ataque ao Congresso em 2021 representavam, não sei, um quarto das pessoas nos EUA. Dizer que o presidente representa a grande maioria das pessoas no país é falso.”

    Davis disse que a razão pela qual Trump voltou foi porque muitas pessoas deixaram de votar. “Se esquecermos isso, assumimos que esse tipo de conservadorismo e a supremacia branca estão em ascensão. E não acho que estejam. Eu acho que eles apenas saíram do armário.”

    Sobre a causa palestina, afirmou que a tentativa de equiparar o antissemitismo com a solidariedade palestina é uma tática usada pelos conservadores. Ela disse que pesquisas nos EUA indicam que a maioria se inclina mais para a solidariedade palestina do que para o Estado de Israel. “É a primeira vez que vemos essa expressão, e é lamentável ter sido necessária a destruição genocida de Gaza para que essa nova sensibilidade política emergisse.”

    Sobre a maior fraqueza do movimento progressista atual, Davis afirmou que não estão organizados da forma que deveriam. “As possibilidades estão aí, mas não encontramos as formas organizacionais que nos permitirão dar expressão a esses sentimentos políticos.”

    Cristina Leroy Silva

    Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados.

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