Em 2010, o intervalo médio entre a data do casamento e a do divórcio no Brasil era de aproximadamente 16 anos. Em 2024, esse mesmo intervalo ficou em 13,8 anos, segundo as Estatísticas do Registro Civil divulgadas pelo IBGE.

    O levantamento traz um segundo número que, à primeira vista, parece contradizer o primeiro: foram 428.301 dissoluções de casamento entre pessoas de sexos diferentes no ano, queda de 2,8% na comparação com 2023 e a primeira redução desde 2020. Menos casais se separam. Os que se separam chegam à decisão mais rápido.

    A leitura que profissionais de terapia familiar fazem desse conjunto é menos dramática do que a manchete sugere.

    A queda na duração média não significa, por si só, que as relações pioraram. Significa que o desgaste passou a ser tolerado por menos tempo. Mudou a paciência com a convivência esvaziada, não necessariamente a qualidade do afeto.

    O desgaste raramente começa com uma briga

    Quem atende casais costuma repetir uma observação simples: a maior parte das relações não se rompe por um episódio isolado. Rompe por acúmulo.

    Jornadas longas, deslocamento urbano, filhos pequenos, contas dividindo espaço na mesa do jantar e telas ocupando cada intervalo entre uma tarefa e outra vão comendo o tempo de convivência sem que ninguém registre a conta chegando.

    O sintoma mais comum não é o conflito aberto. É a previsibilidade. Duas pessoas que sabem exatamente o que a outra vai dizer, em que ordem e a que horas o assunto vai morrer.

    A conversa vira escala de tarefas. O carinho vira agenda. O tempo livre, quando sobra, é gasto em atividades paralelas dentro da mesma sala.

    Casais nessa faixa raramente descrevem infelicidade. Descrevem cansaço. E cansaço é um estado difícil de nomear em terapia, porque não produz culpado.

    O que a psicologia observou sobre novidade compartilhada

    Desde os anos 1990, um conjunto de estudos conduzidos pelo psicólogo americano Arthur Aron e por colaboradores investiga o que acontece quando parceiros de longa data fazem juntos alguma atividade nova, levemente desafiadora e fora da rotina habitual.

    O padrão encontrado em diferentes desenhos experimentais aponta na mesma direção: casais expostos a tarefas inéditas e estimulantes relatam, logo depois, mais satisfação com a relação do que casais que apenas repetiram atividades agradáveis já conhecidas.

    A explicação proposta pelos autores é que o vínculo se alimenta de expansão. Quando duas pessoas aprendem algo, se atrapalham juntas e riem do próprio erro, o cérebro associa aquele estado de ativação à presença do outro. O oposto também vale: repetição prolongada tende a produzir conforto sem intensidade.

    É por esse caminho que jogos, desafios e brincadeiras entram na conversa sobre vida a dois, inclusive na esfera íntima.

    Uma pergunta circula com frequência em conteúdos sobre relacionamento: Como os jogos ajudam casais em crise? O efeito descrito por quem acompanha casais é concreto.

    A estrutura lúdica devolve ao encontro o elemento de surpresa que a repetição havia apagado e cria um pretexto leve para uma conversa que vinha sendo adiada.

    Onde faltava porta de entrada, passa a existir um combinado feito pelos dois, sem cobrança e sem peso.

    Por que a estrutura importa mais do que o objeto

    Terapeutas que trabalham com sexualidade descrevem um obstáculo prático em casais de longa data: ninguém quer ser o primeiro a propor mudança.

    Propor é expor um desejo, e expor um desejo carrega risco de recusa. O silêncio, nesse cálculo, parece mais barato do que o constrangimento.

    Uma regra externa desmonta parte desse impasse. Quando a proposta vem de uma carta, de um dado ou de um papel raspado, a responsabilidade sai do indivíduo e passa para o acaso.

    Não é mais alguém pedindo. É a rodada pedindo. Isso soa trivial e não é: transferir a autoria da proposta reduz a chance de leitura pessoal em caso de recusa.

    O mesmo mecanismo aparece em outros contextos. Terapia de casal usa exercícios estruturados pelo mesmo motivo.

    Dinâmicas de equipe em ambiente corporativo funcionam assim. A estrutura serve para autorizar o que já existia e não encontrava porta de entrada.

    Um mercado que cresceu com a discrição do comércio eletrônico

    O deslocamento desse tipo de item da loja de rua para a tela do celular explica boa parte da mudança de comportamento.

    Dados da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual apontam faturamento de cerca de R$ 1 bilhão em 2017, com crescimento de 12% em 2020 na comparação com o ano anterior.

    Levantamento da consultoria Cortex identificou a abertura de 1.068 empresas do segmento no país em 2022, alta de 35% sobre 2021, com quase 90% delas classificadas como microempreendedor individual ou microempresa.

    Representantes da associação atribuem a expansão sobretudo à entrada do público feminino, que passou a responder pela maior fatia das compras.

    A embalagem neutra e a compra sem contato humano removeram a barreira que sustentava o setor em nicho por décadas: a exposição.

    O número mede acesso e aceitação social, e ajuda a explicar por que um assunto tratado em voz baixa até os anos 2000 aparece hoje em consultório, em pauta de revista e em conversa entre amigas sem o mesmo peso de antes.

    Por onde costuma começar quem nunca começou

    Profissionais que orientam casais sobre esse terreno convergem em um ponto: a estreia rende mais quando é simples.

    Comece pelo básico é o conselho mais repetido por quem trabalha no setor. Itens de baixo custo, uso único e intensidade leve funcionam bem justamente por isso.

    Entram na noite sem exigir preparação, custam menos do que um café e costumam render risada antes de qualquer outra coisa.

    Boa parte das pessoas descobre nesse formato inicial que o assunto era mais fácil de puxar do que parecia.

    A lógica é a mesma de qualquer hábito novo. Quem nunca correu não estreia numa maratona. A primeira experiência funciona melhor quando é curta, leve e fácil de repetir na semana seguinte.

    Três combinados ajudam a evitar tropeços comuns:

    Escolha conjunta. Item comprado por uma pessoa e apresentado como surpresa gera desequilíbrio. A decisão compartilhada já é parte do exercício.

    Direito de parar sem explicação. Qualquer proposta precisa vir com a possibilidade de encerramento imediato, sem cobrança posterior e sem interpretação sobre o que a recusa significa.

    Momento adequado. Terça à noite, depois de um dia ruim, com criança acordada no quarto ao lado, não é teste válido de nada.

    Quando a rotina não é o problema real

    Brincadeira e jogo atuam sobre um ponto específico, que é a previsibilidade da convivência. Outras queixas seguem caminho próprio, e reconhecer a diferença poupa tempo do casal.

    A Organização Mundial da Saúde define saúde sexual como estado de bem-estar físico, emocional, mental e social relacionado à sexualidade, e não apenas como ausência de doença ou disfunção. Esse conceito amplo existe justamente porque queixas nessa área raramente são isoladas.

    Dor durante a relação, perda persistente de desejo, quadros de ansiedade ou depressão, efeitos colaterais de medicação de uso contínuo e alterações hormonais que se mantêm por meses pedem avaliação com médico ou terapeuta especializado.

    Relações marcadas por controle, humilhação ou qualquer forma de violência também exigem apoio profissional, e nesse cenário o assunto é outro.

    Nada disso está em oposição ao que foi tratado até aqui. São camadas diferentes do mesmo cuidado: uma cuida do clima da convivência, a outra cuida da saúde de quem vive nela.

    O que os números não contam

    A estatística do IBGE registra o fim. Não registra os anos em que a relação foi se esvaziando em silêncio, nem as tentativas que ninguém formalizou em cartório.

    Entre a união estável e a sentença existe um período longo, invisível nos dados, em que a maioria das decisões efetivas é tomada.

    A pesquisa sobre novidade compartilhada não promete salvar casamento nenhum. Sugere algo mais modesto e mais aplicável: relações que reservam espaço para o inesperado envelhecem de forma diferente daquelas que operam apenas em modo administrativo.

    A diferença não está no tipo de atividade escolhida. Está no fato de existir uma atividade escolhida.

    Casais que atravessam décadas juntos costumam citar coisas pequenas quando perguntados sobre o que sustentou a convivência.

    Uma piada interna que ninguém de fora entende. Um ritual de domingo de manhã. Um programa que só os dois acham divertido.

    Nada disso aparece em pesquisa de registro civil, e é possível que seja exatamente aí que a conta se equilibra.

    Cristina Leroy Silva

    Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados.

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