Em janeiro deste ano, muita nail designer abriu a gaveta da bancada e separou frascos para descarte. Não foi faxina de começo de ano.

    O prazo dado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária para o fim da venda e do uso de esmaltes em gel com duas substâncias específicas havia se encerrado, e parte do estoque virou passivo de um dia para o outro.

    Quem trabalha com unha aprendeu ali uma lição cara: fornecedor não é detalhe operacional, é decisão de negócio.

    A norma que mexeu com o estoque de todo mundo

    A RDC 995/2025, norma da Diretoria Colegiada da Anvisa publicada em 29 de outubro do ano passado, proibiu o TPO, óxido de difenil (2,4,6-trimetilbenzol) fosfina, e o DMPT, a N,N-dimetil-p-toluidina, também chamada de dimetiltolilamina. As duas eram velhas conhecidas de quem trabalha com fotopolimerização.

    O TPO agia como fotoiniciador, aquilo que faz o gel endurecer sob a luz da cabine. O DMPT funcionava como acelerador desse processo.

    A regra foi escalonada. Fabricação, importação e novos registros ficaram proibidos assim que a norma saiu.

    Empresas e estabelecimentos ganharam noventa dias para encerrar venda e uso do que já estava nas prateleiras, prazo que terminou em janeiro. Depois disso, registros cancelados e recolhimento.

    Em março, a agência determinou a retirada de esmaltes em gel da marca Impala do mercado, todos os lotes, depois que a fabricante comunicou recolhimento voluntário por conta do TPO na fórmula.

    O Brasil seguiu a União Europeia, que havia banido as mesmas substâncias pelo Regulamento (UE) 2025/877. Na classificação europeia, as duas entraram como CMR 1B: cancerígenas, mutagênicas ou tóxicas para a reprodução.

    O TPO foi enquadrado como tóxico para a reprodução, e o DMPT, como potencialmente cancerígeno, com base em estudos com animais.

    A bancada virou negócio, e negócio não convive com improviso

    Existe um contexto econômico por trás desse susto. Levantamento do Sebrae com base na PNAD Contínua mostrou que o Brasil passou de dez milhões de mulheres donas do próprio negócio em 2025, crescimento de 27% em dez anos.

    Manicure, pedicure e cabeleireiro formam a segunda atividade econômica mais representativa em número de empresas no país, e a primeira dentro do universo do Microempreendedor Individual.

    O ticket explica a corrida. Uma manicure tradicional gira em torno de R$ 35, segundo a analista Kamila Domingos, do Sebrae Minas. Um alongamento pula para R$ 180 ou mais, e atendimentos de unha de gel já ultrapassam R$ 200 em algumas agendas.

    A demanda sustenta o preço: pesquisa da Mundial/Impala divulgada em 2025 apontou que 86% das brasileiras fazem as unhas ao menos uma vez por semana. Projeções de mercado colocam o segmento de esmaltes em R$ 4,5 bilhões até 2028.

    Quando a receita depende de agenda cheia e de cliente que volta a cada quinze dias, material ruim custa dinheiro real. Gel que escorre, cabine que cura mal, motor que perde força no meio da remoção: cada falha vira retrabalho, e retrabalho vira horário perdido.

    Muitas nails estão optando por produtos da Kaisa para ter um melhor desempenho em mesa. A escolha, hoje, passa menos por preço de etiqueta e mais por previsibilidade de resultado.

    Cabine, motor e sugador definem o ritmo do atendimento

    O equipamento elétrico é onde a diferença aparece primeiro. A cabine F4 Plus da marca trabalha com 54W e 36 LEDs distribuídos para cobrir a mão inteira, com fundo metálico refletor para reforçar a cura.

    Tem temporizador de 10, 30, 60 e 120 segundos, sensor de aproximação que liga sozinho, controle por toque e modo Low Heat, aquele que reduz a queimação que faz a cliente tirar a mão antes da hora.

    É bivolt e recarregável, o que resolve a vida de quem atende a domicílio e nunca sabe onde vai encontrar tomada.

    Do lado do corte, o motor de mesa de 65W chega a 35.000 RPM com controle progressivo de velocidade, ruído baixo e pouca vibração.

    Rotação alta serve para remoção de gel, acrílico, fibra e polygel sem perda de força, e velocidade regulável serve para não ferir a cliente no acabamento. São duas exigências opostas atendidas pelo mesmo aparelho, e é aí que motor barato costuma falhar.

    Tem ainda uma peça que quase ninguém mostra no Instagram e que a Sociedade Brasileira de Dermatologia trata como questão de saúde: o pó suspenso no ar.

    A entidade recomenda salões com boa ventilação e uso de equipamento de proteção pelos profissionais. Um sugador de 48W acoplado à mesa não substitui janela aberta nem máscara, mas tira do ambiente aquilo que a nail respiraria oito horas por dia.

    O que quebra no meio do atendimento

    Há um detalhe pouco glamouroso que separa marca de importação avulsa: a peça de reposição. Bateria de cabine, placa de LED, suporte de pé. Equipamento que pode ser consertado tem vida útil de anos.

    Equipamento sem peça no mercado brasileiro morre na primeira queda de rendimento e leva junto a agenda da semana. Para quem depende de uma bancada só, isso pesa mais do que qualquer campanha publicitária.

    Nude deixou de ser ausência de cor

    A tendência ajudou. Segundo Giovanni Fernandes, docente de beleza do Senac em Uberaba, o que predomina agora são as unhas nude, mais claras, depois de temporadas de cor pesada.

    Parece simples, mas nude é a esmaltação mais difícil de executar: qualquer bolha, qualquer falha de nivelamento, qualquer sombra de cutícula aparece.

    Foi para esse tipo de trabalho que a marca montou uma paleta curta e técnica no gel de 30g, com cinco tons pensados como sistema e não como coleção: nude blush rosado, nude sakura mais clean, nude sunrise quente, nude vannila clássico e transparente para encapsulamento e estrutura.

    Na linha Luxo, o top coat foi reformulado sem TPO, e o catálogo inclui recursos de decoração como o gel magnético e o flake holográfico, além do gel color cushion, que junta cinco funções no mesmo pote.

    A alergia que cobra caro de quem aplica

    O tema mais delicado do setor não é estético. Os acrilatos, responsáveis pela aderência e pela durabilidade do gel, têm alto poder sensibilizante.

    A exposição repetida pode desencadear dermatite alérgica de contato mesmo em quem nunca reagiu antes, com vermelhidão, coceira, ardência, descamação e, em quadros severos, dor intensa e descolamento da unha.

    A Associação Britânica de Dermatologistas publicou em 2023 uma nota informando que o número de pacientes com reações adversas havia dobrado em cinco anos.

    Aqui, a SBD emitiu em junho de 2025 uma nota do Departamento de Alergia e Dermatoses Ocupacionais manifestando preocupação com publicações que orientavam profissionais de estética a fazer teste cutâneo em clientes.

    A posição da entidade é direta: teste alérgico é ato médico. Rosana Lazzarini, primeira secretária da SBD, lembra que as reações atingem tanto quem usa quanto quem aplica, e que nas profissionais é comum a lesão tomar a mão inteira.

    Existe ainda um agravante técnico. Polimerização incompleta, ou seja, cura mal feita sob a luz, deixa resíduo ativo na superfície e aumenta a sensibilização. Cabine fraca, portanto, não é só questão de acabamento.

    O que a linha Pro Sensi propõe

    Esse cenário explica por que uma linha inteira foi desenhada em torno de sensibilidade. A Linha Pro Sensi foi pensada exclusivamente para clientes que desenvolveram alergia aos componentes das linhas normais.

    A proposta é de fórmula hipoalergênica com certificação SGS, um dos selos internacionais mais exigentes em segurança de produto, aplicada ao conjunto e não a um item isolado: PH Bond 3 em 1, gel base, top coat e o gel construtor de 30g.

    Na prática, o protocolo continua o mesmo. Preparação, aplicação conforme a técnica, modelagem, cura em cabine UV ou LED e finalização. A diferença está na composição e no controle de qualidade por trás dela.

    O gel foi formulado para não escorrer, com aderência alta e nivelamento uniforme, atributos que servem tanto à estética quanto à segurança, já que estrutura bem construída reduz remoção agressiva.

    Nenhuma linha hipoalergênica cancela a necessidade de diagnóstico. A SBD orienta que qualquer vermelhidão, descamação ou mudança de textura na unha seja levada a um dermatologista, e que o produto usado esteja regularizado junto à Anvisa. Fórmula mais segura reduz risco, não substitui médico.

    O que perguntar antes de fechar o pedido

    A virada regulatória deixou um roteiro razoável para quem vai comprar. Confira o registro do produto no site da Anvisa.

    Leia a composição procurando pelo nome INCI, já que rótulo raramente escreve TPO com todas as letras: aparece como diphenyl(2,4,6-trimethylbenzoyl)phosphine oxide ou trimethylbenzoyl diphenylphosphine oxide.

    Pergunte se existe certificação de terceira parte. Confirme potência real da cabine e disponibilidade de peça de reposição. Cheque se o fornecedor tem CNPJ, endereço físico e canal de atendimento.

    A resposta à pergunta do título, no fim, tem pouco de romance de marca. As profissionais de unha viraram empresárias, o Estado apertou a norma, os dermatologistas subiram o tom, e as clientes passaram a perguntar o que está sendo passado na mão delas.

    Quem chegou nessa conversa com formulação limpa, certificação no papel e equipamento que aguenta oito horas de mesa ganhou espaço. Quem chegou com frasco bonito e ficha técnica vaga está perdendo bancada, uma gaveta de cada vez.

    Cristina Leroy Silva

    Formada em letras pela UNICURITIBA, Cristina Leroy começou trabalhando na biblioteca da faculdade como uma das estagiárias sênior. Trabalhou como revisora numa grande editora em São Paulo, onde cuidava da parte de curadoria de obras que seriam traduzidas/escritas. A 4 Anos decidiu largar e se dedicar a escrever em seu blog e sites especializados.